Peter Howard Wertheim

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Diante da crise internacional, o novo modelo do setor elétrico, que completa cinco anos de implantação, já precisa de ajustes para superar eventuais problemas que estão surgindo na área. A avaliação é do professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Castro apontou, entre os problemas eventuais, a questão do meio ambiente, “que ainda está travando a construção de novas usinas hidrelétricas”, e o mercado livre, com elevada volatilidade de preços, que “gera incerteza para as indústrias que participam desse mercado”.

Para Nivalde de Castro, a crise financeira internacional não vai afetar de forma drástica o modelo em vigor no Brasil, porque ele tem “fundamentos muito sólidos, principalmente os leilões que são realizados”. Como exemplo, citou o leilão de linhas de transmissão de 2,5 mil quilômetros do Rio Madeira, realizado em novembro passado, que projetou investimentos em torno de US$ 3,3 bilhões.

“Houve interesse por parte das empresas de participar desse empreendimento. E isso em um momento de crise grave que o mundo e o Brasil estavam passando. Essa é uma prova de que o modelo está blindado, porque ele se apóia em leilão, se apóia em contratos de longo prazo”.

Energias alternativas

O coordenador do Gesel destacou a necessidade de que seja trazida mais bioeletricidade, como o bagaço da cana, e mais energia eólica (produzida a partir dos ventos), para a matriz energética, por meio da realização de leilões específicos para essas duas fontes renováveis. Isso servirá para evitar o que os especialistas já estão chamando de “armadilha das usinas térmicas a óleo”. É preciso, disse Castro, promover um ajuste na maneira como as usinas a óleo têm os valores fixados nos leilões.

A política de melhoria da distribuição de renda, que deslocou as classes E e D para a nova classe C brasileira, onde o nível de consumo é maior, “vai ter um efeito anti cíclico em relação à crise que o Brasil vai passar”. Ou seja, o Brasil vai ser afetado, mas não de forma intensa, devido ao foco dado ao fortalecimento do mercado interno. E os reflexos disso sobre a demanda do setor elétrico são muito favoráveis, indicou Castro.

Com a melhoria do nível de renda, nota-se uma ampliação da compra de bens de consumo durável que consomem energia elétrica, entre os quais televisores melhores, aparelhos de som, geladeiras, microcomputador. “Isso tudo faz com que a demanda de energia elétrica cresça, mesmo que todos esses equipamentos consumam menos energia do que os velhos, porque hoje a indústria se preocupa muito com a questão da eficiência energética”, destacou.

Nesse cenário de crise mundial, o Brasil, de certa maneira, não vai ser tão afetado, afirmou Castro. Explicou que o setor elétrico se diferencia dos demais “porque o modelo que construiu um novo marco regulatório é muito consistente e está muito robusto. E, para esse tipo de crise de demanda, não há problema para o setor elétrico porque sobra energia e o setor elétrico tem condição de absorver essa sobra”.

Acidentes de trabalho no setor elétrico diminuindo

As estatísticas de acidentes com trabalhadores do setor de energia elétrica demonstram que tanto a taxa de frequência quanto a de gravidade estão decrescendo ao longo dos anos. A boa notícia não é sem motivo, mas consequência direta de investimentos nos programas de saúde e segurança dos funcionários. Dados apurados pela Fundação COGE mostram que a taxa de gravidade caiu de 719 em 2006 para 538 em 2007, o menor índice da série histórica iniciada em 1997. E a tendência da curva é continuar em queda, já que os investimentos na prevenção estão em alta. As companhias entenderam que evitar a tragédia é muito mais barato do que arcar com os custos dos acidentes.

Um dos índices que comprovam a tese da prevenção é o número de horas de trabalho perdidas. No ano de 2007, as empresas perderam 870.048 horas de trabalho em decorrência de acidentes com lesão. Este valor é 24% menor do que o de 2006, quando as companhias contabilizaram 1.152.144 horas. As horas perdidas em 2007 representam nada menos que um ano inteiro de operação de uma empresa do porte da SULGIPE ou da Duke Energy.

O setor elétrico vem buscando o crescimento nesta área com o intercâmbio de informações e práticas de sucesso, além de promover premiações que motivem as empresas e seus colaboradores a evitar acidentes.