P ara o setor elétrico no Brasil o ano começou mal. Foram vários apagões em janeiro, isto é, interrupções de energia nos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina, São Paulo, Paraíba e Rio Grande do Norte .

Para os conhecedores do setor isso não foi surpreendente. Segundo eles, os apagões foram causados pela fragilidade nas linhas de transmissão de energia elétrica. Obras atrasadas, raios, ventos ou sobrecarga de energia são prováveis causas de apagões.

O governo anunciou que nos próximos 3 anos US$ 3,2 bilhões serão investidos na instalação de 14.003 km de fios para interligar o sistema nacional e garantir a segurança do sistema.

Mesmo assim, dados de agosto de 2004 publicados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão que reúne empresas públicas e privadas, demonstram que de 2005 até 2007 há grandes riscos. O relatório diz que nesse período o sistema de transmissão interligado poderá ter até 125 problemas.

Pelo menos 46 pontos da rede estão classificados nos níveis de gravidade de 1 a 3 (envolvendo segurança do sistema e significando possibilidade de apagão) . Outros 52 problemas poderiam ocorrer em 2006 e mais 27em 2007.

O diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires, não acredita que os apagões ocorridos no país, tenham sido ‘casos isolados’ como afirma o governo, e sim resultado da falta de investimentos.

De acordo com o levantamento do CBIE, considerando-se a necessidade de ampliação da rede básica e o que foi realizado no período de 2003 a 2004, houve um déficit de 1.100 km- em obras necessárias não realizadas-ou de 3.669 megavolts -ampère (MVA).

Analistas estimam que nos últimos dois anos mais US$ 1 bilhão em investimentos deveriam ter sido destinados a áreas essenciais. Como a aplicação de recursos está defasada, outros problemas semelhantes podem ocorrer, pois os eventos não foram restritos a uma área, foram registrados em diferentes regiões do Brasil.

Embora Mario Santos, presidente do ONS, não acredite que novos apagões venham a ocorrer no país, analistas que compararam dados do ONS e da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) alertaram sobre os riscos.

O Plano de Ampliação e Reforços (PAR) na rede básica, publicado em 2004 pela ONS recomendou uma ampliação de 6.008 km em 2003, mas segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a expansão realizada foi de 4.979 km.

O ONS também indicou que em 2003 deveria ocorrer um aumento de 12.758 megawatts (MW), mas naquele ano a Aneel registrou a ampliação da capacidade de transformação da rede em 11.155 MW.

No ano passado o ONS recomendou expansão de 2.634 km, porém a Aneel apontou um aumento de 2.500 km.

Em 2004, o acréscimo sugerido pelo órgão era de 4.539 MW, mas as estimativas da Aneel apontam para uma elevação de 2.473 MW, o que provocou um déficit de 3.669 MW, o suficiente para iluminar uma cidade como Campinas. O município paulista de Campinas tem um milhão de habitantes.

Para os especialistas, também há problemas severos de manutenção na rede de distribuição. Pires comentou que segundo o ONS, em meados de 2004, do total de 176 empreendimentos necessários para a ampliação e reforço das redes de transmissão que ainda não tinham obtido concessão, 95 precisariam ter sido concluídos. E que 58 dessas obras deveriam ter sido realizadas para atacar os problemas de segurança do sistema. Um dos problemas apontados foi a morosidade para obtenção de licenças ambientais.

Outro problema grave é o desperdiço de energia. Pelos dados do Procel, programa da Eletrobrás que promove o desenvolvimento de tecnologias e métodos para o uso racional de energia, o Brasil joga fora o equivalente a 47 milhões de quilowatts-hora (kWh) de energia por ano. Esse volume é suficiente para abastecer uma cidade com 25 milhões de residências, o que equivale ao consumo do Nordeste inteiro.

Para gerar essa energia é necessária uma usina hidrelétrica de 11.000 MW. Técnicos do setor calculam que, para se construir uma usina com essa capacidade, seriam necessários investimentos de cerca de US$ 18,7 bilhões.

A Eletrobrás é responsável por 60% da geração e 72% das linhas de transmissão do País. Na Eletrobrás, o volume previsto de investimentos em 2005 é de US$ 1,7 bilhões, quase 40% acima da média de US$ 1,2 bilhões dos cinco anos anteriores. No entanto, estima-se que o Brasil necessite de, pelo menos, US$ 7,6 bilhões por ano para fazer frente ao aumento do consumo.