Inàƒºmeras versàƒµes sobre as causas do apagàƒ£o no Brasil

Em 10 novembro, àƒ s 22 horas e 13 minutos um ‘blackout’ atingiu 45% do paàƒ­s, desligando mais de 80 cidades em 18 estados do Brasil. Embora algumas cidades do sul tenham recuperado a energia em menos de uma hora, a maior parte do paàƒ­s sofreu as conseqàƒ¼àƒªncias de 5 horas ou mais sem energia.

Peter H. Wertheim

O estranho é que até o fechamento desta ediàƒ§àƒ£o as causas do apagàƒ£o ainda nàƒ£o foram suficientemente esclarecidas. A causa teria sido uma pane da transmissàƒ£o no sistema elétrico interligado brasileiro.

No inàƒ­cio, a imprensa divulgou que o apagàƒ£o, que desligou 28.800 MW do circuito, afetando cerca de 60 milhàƒµes de pessoas, foi causado por uma pane na usina hidrelétrica de Itaipu. A Itaipu Binacional, no entanto, afirmou que o apagàƒ£o nàƒ£o teve origem na usina embora o Paraguai também tenha ficado sem eletricidade.

O Ministro de Minas e Energia, Edison Lobàƒ£o, declarou que descargas elétricas, ventos e chuva haviam disparado o desligamento descontrolado de estaàƒ§àƒµes e provocado um efeito dominàƒ³ em toda a rede.

A Chefe da Casa Civil e ex- ministra de Energia, Dilma Rousseff, justificou o blecaute a partir do desligamento de tràƒªs linhas, ocorrido por conta de condiàƒ§àƒµes meteorolàƒ³gicas adversas na regiàƒ£o de Itaberàƒ¡ (sul do Estado de Sàƒ£o Paulo).

Duas hipàƒ³teses, também relacionadas ao clima, foram citadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS): uma sugere descargas atmosféricas sobre linhas de transmissàƒ£o entre Ivaiporàƒ£ (Estado do Paranàƒ¡) e em Itaberàƒ¡ e outra aponta chuvas e ventos que teriam atingido o isolamento dessas linhas de transmissàƒ£o, provocando um curto-circuito simultàƒ¢neo e reduzindo a capacidade da rede de suportar a tensàƒ£o.

Segundo executivos do ONS, curtos-circuitos sàƒ£o comuns no sistema, mas nunca ocorreram simultaneamente antes. Desde 2000, explicaram, jàƒ¡ ocorreram nove curto-circuitos triplos (em tràƒªs linhas), porém com mais de dois ou tràƒªs segundos de intervalo entre eles, o que evitou o problema de acàƒºmulo de tensàƒ£o e conseqàƒ¼ente desligamento.

Embora meteorologistas de Sàƒ£o Paulo e do Simepar, responsàƒ¡vel pelo monitoramento do clima no Paranàƒ¡, tenham confirmado a tempestade na regiàƒ£o, uma anàƒ¡lise feita por técnicos do Elat (Grupo de Eletricidade Atmosférica), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espacias) demonstrou que as chances de um raio ter sido a causa do apagàƒ£o sàƒ£o màƒ­nimas.

Segundo o Inpe, no horàƒ¡rio do apagàƒ£o, as descargas mais pràƒ³ximas do sistema elétrico estavam a cerca de 30 km da subestaàƒ§àƒ£o de Itaberàƒ¡ e a cerca de 10 km de uma das quatro linhas de Furnas de 750 kV [kilovolts] e a cerca de 2 km de uma das outra linhas de 600 kV, que saem de Itaipu em direàƒ§àƒ£o a Sàƒ£o Paulo.

“Além disso, a baixa intensidade da descarga registrada [menor que 20 kA] nàƒ£o seria capaz de produzir um desligamento da linha, mesmo que incidisse diretamente sobre ela, como também confirma a Rede Brasileira de Detecàƒ§àƒ£o de Descargas, que estava operando com àƒ³timo desempenho no momento do apagàƒ£o,” explicou o comunicado.

O mesmo documento acrescenta que “em geral, apenas descargas com intensidade superiores a 100 kA, atingindo diretamente uma linha, podem causar um desligamento de linhas de transmissàƒ£o operando com tensàƒµes tàƒ£o elevadas como as linhas de Itaipu [duas de 600 kV e duas de 750 kV]”.

Para o chefe do Departamento de Engenharia da Pontificia Universidade Catàƒ³lica-SP, Aparecido Nicolett, a condiàƒ§àƒ£o climàƒ¡tica registrada nàƒ£o tem capacidade de derrubar uma linha: “Mas o que pode ter acontecido é a queda de galhos que caàƒ­ram sobre um cabo provocando ruptura.”

Nicolett descartou a possibilidade de invasàƒ£o do sistema por piratas virtuais ou sabotagem. “O sistema nàƒ£o é tàƒ£o fràƒ¡gil. Ou foi problema fàƒ­sico ou operacional”.

A conclusàƒ£o é que o apagàƒ£o demonstra fragilidade na rede interligada. Como a redundàƒ¢ncia total ficaria muito cara, o Brasil precisa descentralizar a geraàƒ§àƒ£o e a transmissàƒ£o de energia elétrica para evitar novos apagàƒµes generalizados, advertem especialistas do setor. Seriam pequenas e médias empresas capazes de produzir regionalmente energia alternativa como de pequenas usinas nucleares ou térmicas, de biomassa ou eàƒ³lica e de outros recursos naturais que entrassem em operaàƒ§àƒ£o nessas situaàƒ§àƒµes.

Entre 2003 e 2008 a Agencia Nacional de Energia Elétrica (Aneel) arrecadou R$1,6 bilhàƒ£o de Taxa de Fiscalizaàƒ§àƒ£o dos Serviàƒ§os de Energia Elétrica cobrada de todos os consumidores mas teve liberados apenas 45% dos recursos, ou seja, apenas R$748,6 milhàƒµes foram repassados àƒ  agàƒªncia.

De janeiro a agosto desse ano, o Grupo Eletrobràƒ¡s investiu apenas 38% dos R$7,2 bilhàƒµes planejados para esse ano nos sistemas de geraàƒ§àƒ£o e transmissàƒ£o. Responsàƒ¡vel por cerca de 56% das linhas de transmissàƒ£o que interligam o paàƒ­s, a Eletrobràƒ¡s deveria ter investido R$2,5 bilhàƒµes em linhas de transmissàƒ£o.

Para o professor Ennio Peres da Silva, coordenador do Laboratàƒ³rio de Hidrogàƒªnio e pesquisador do Nàƒºcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade de Campinas (Unicamp), riscos de apagàƒ£o sempre vàƒ£o existir, mas é possàƒ­vel diminuàƒ­-los com investimentos em uma operaàƒ§àƒ£o mais eficiente.

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