Osetor elétrico brasileiro inicia nova onda de consolidação, que vai levar à criação de alguns poucos grupos de grande porte com aquisições de pequenas empresas sem escala e capital para competir. CPFL Energia e Energias do Brasil já estão prontos, depois que reduziram seu endividamento e foram ao mercado de capitais para reforçar seu caixa. Outros grupos, como Cemig, Neoenergia e Equatorial (controlada do GP Investimentos e Pactual) analisam ativos, reportou o jornal de negócios Valor.

Alguns movimentos começam a ocorrer. Recentemente, a CPFL comprou os ativos do grupo americano Public Service Enterprise Corporation Global ( PSEG ) no Brasil por US$ 185 milhões. O principal negócio do grupo no país era a participação de 32,69% na Rio Grande Energia ( RGE ), concessionária gaúcha de distribuição elétrica. A CPFL já detinha 67,07% da RGE .

O presidente da CPFL Energia, Wilson Ferreira Júnior, acredita que permanecerão no país de seis a oito grandes grupos de energia, os quais concentrarão pelo menos 80% do mercado. “É uma tendência mundial a criação de gigantes no setor elétrico. Esse movimento já ocorre nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, existem 65 distribuidoras, sendo que 40% delas são pequenas. A maioria sofrerá um processo de fusão ou aquisição”, diz o executivo.

Ele afirma que a CPFL tem a estratégia de crescimento nas regiões Sul e Sudeste do país. “Ganho de escala e racionalização dos custos corporativos são elementos chave no segmento de distribuição de energia”, afirma Ferreira Jr.

A avaliação de especialistas é de que além da CPFL, a Cemig e a Energias do Brasil disputem os eventuais ativos disponíveis no Sudeste, região mais rica do país. Deverão ser postos à venda no médio prazo empresas como distribuidora Elektro (controlada pela Prisma, ex-Enron) e a geradora Duke Energy, ambas em São Paulo. Empresas como Duke e Prisma, além da CMS (que possui pequenas distribuidoras no interior de São Paulo) deverão voltar o foco para seu país de origem (EUA), como já fizeram a Alliant e a PSEG, também americanas.

Em Portugal, jornais chegaram a noticiar o interesse da Energias do Brasil (controlada pelos portugueses da EDP) na Duke Energy. A empresa negou que estivessem ocorrendo negociações entre as duas companhias. Mas o presidente do grupo no Brasil, António Martins da Costa, admitiu que a empresa está “olhando ativos já existentes e também a serem construídos” no país.

Martins da Costa também acredita na tendência de concentração do setor elétrico. “As empresas no Brasil irão seguir a tendência mundial, certamente. Existe muita liquidez no mercado e as empresas estão capitalizadas”, disse o executivo

A Energias do Brasil tem como prioridade crescer na área de geração – daí o suposto interesse na Duke Energy. Porém, o presidente do grupo português não descarta aquisições no segmento de distribuição. “Se houver vantagens geográficas, faremos”.

No caso da produção de energia, não há muita distinção do local onde será construída a usina, já que o sistema nacional é interligado e todos dividem o custo dessa infra-estrutura. Todavia, no caso da distribuição a proximidade geográfica traz sinergias importantes.

Assim, avalia-se que no Nordeste brasileiro disputarão a hegemonia os grupos Neonergia (controlada por Previ e Iberdrola ) e a Equatorial (GP e Pactual), que captou R$ 540 milhões há algumas semanas com abertura do seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo.

Empresas federalizadas como a Ceal (AL) e a Cepisa (PI) e outros pequenos ativos como as distribuidoras da Cataguazes Leopoldina serão os alvos das grandes concessionárias, privadas e até estatais, como Cemig.

Duas companhias nacionais de médio porte – Grupo Rede e Cataguazes Leopoldina – são algumas das empresas desejadas pelas grandes, mas que também não anunciaram oficialmente o desejo de venda de suas empresas. Os ativos do Rede no Centro-Oeste e Sudeste estão no alvo, principalmente, da Cemig, que também corteja a Cataguazes. A Cemig fez inclusive oferta de compra da térmica de Juiz de Fora, controlada pela Cataguazes, mas foi desclassificada pelo Itaú, que coordena a operação de venda da usina, porque a informação vazou e o acordo de confidencialidade foi quebrado.

A Cemig, aliás, tem muito desejo de partir para aquisições-é o caso da Light, no Rio, e comprou participações em negócios de transmissão-e essa estratégia está descrita no seu plano diretor divulgado em 2004.